Kombi Menta Livro 1: Prólogo + Primeira cena
Leia o início do livro, conheça as três personagens centrais e ouça a primeira música da trilha sonora.
Eu nem acredito que finalmente estou postando o primeiro capítulo do livro 🙌🍾. Depois de semanas editando e reeditando tive que parar tudo e dizer a mim mesma: "chega, Luciana, tá na hora!”. Uau… escrever não é fácil, mas se convencer a parar de editar é muito mais difícil!
Antes do trecho do livro em si, queria deixar algumas informações:
Aqui neste artigo - que é aberto a todos gratuitamente - estão o prólogo e a primeira cena do primeiro capítulo.
Em breve devo postar a segunda entrega (provavelmente a segunda cena), ainda aberta e gratuita.
A partir da terceira postagem, as cenas passam a ser fechadas, mas os assinantes premium da newsletter terão acesso a todas as entregas, à medida que eu for terminando as cenas.
Não defini periodicidade fixa porque não quero comprometer o texto em nome de prazos. Mas obviamente todos os assinantes serão comunicados a cada entrega.
Os textos que serão postados são os originais que estou produzindo para o livro que será publicado em breve. No final do processo haverá uma revisão final que deve modificar alguns trechos do que você irá ler aqui na newsletter. Então o que você tem aqui é a oportunidade de acompanhar o meu processo criativo em tempo real e ler uma versão que não estará disponível impressa.
Você pode escutar a trilha sonora do livro no seu player preferido (clique aqui para ouvir onde quiser), mas deixo aqui a música tema deste capítulo:
Agora sim, vamos ao livro 🫶:
Prólogo
Entre todas as tolices que já ouvi, a que mais me fascina é o descaso das pessoas com o destino. De alguma forma, estão — não todos, mas talvez a maioria — convencidas de que as coisas acontecem por acaso, simplesmente porque sim. Lavoisier há séculos dizia que a energia se movimenta, muda de estado, mas não deixa de existir. Tampouco pode ser criada, o que, na minha opinião, prova que não há isso de, puf, algo acontecer por acaso, do nada.
Não, eu nunca conheci esse tal de Lavoisier, e outra tolice aqui não deveria precisar de explicações: eu tenho mais de uma vida — ainda não sei se sete ou nove —, mas isso não significa que eu seja imortal, muito menos que tenha visto todos os fatos da humanidade.
Digamos que tive oportunidade de aprender mais, e o número de vidas, acompanhado da minha curiosidade, faz-me quase sempre ser a mais sábia em um ambiente. Ou talvez porque, entre tantas tolices humanas, simplesmente não ser tola já me conceda uma vantagem.
Junte a isso a minha habilidade de onisciência. Se vocês preferem negar minhas múltiplas vidas por não se encaixar na realidade lógica em que vivem, imagine se desconfiassem que eu - e quando digo eu, não quero dizer que sou a única da minha espécie - não estou limitada ao espaço e ao tempo dos seres humanos.
Sim, eu sei, comecei expondo uma lei da Física para provar meu argumento e agora, categoricamente, afirmo que a Física não se aplica a mim. É que há muitas diferenças entre você e eu, mas também algumas poucas semelhanças e, entre elas, o apego à contradição.
E antes que você se sinta ofendido, deixe-me lhe dizer que contradição não é irremediavelmente algo negativo. A contradição move o mundo. Não porque exerça uma força sobrenatural, mas porque vive dentro de cada um de nós, movendo-nos ora para o sul, ora para o norte. E quando nós nos movemos, o mundo se move. Não o contrário.
Não lhe convenci? Então vou lhe contar uma história.
Capítulo 1
As botas de Ana levantam uma poeira vermelha que sobe a cada passo e alcança seu nariz apontado para o chão. Ela não parece se incomodar ou mesmo ver aquele ar pesado que chega aos seus olhos. Acho que não vê nada.
Eu sei que o caminho lhe é mais que familiar, é tedioso, como toda informação que sabemos de cor sem termos nos esforçados para decorar. Ela nunca estudou aquela estradinha, tampouco se perdeu ou a encontrou. Ela sempre passou por nela. A faixa estreita de terra batida que corta o pasto seco infinito é, obviamente, uma passagem, mas não de um lugar para outro. É apenas onde Ana passa.
Eu gostaria de poder interromper o seu caminho e fazê-la parar. Poder dar-lhe a coragem que precisa ou ao menos falar uma daquelas frases de efeito que parecem mover os humanos. Queria dizer a ela que nenhum caminho é feito de um único destino. Ainda que seja uma linha sem bifurcações, sempre há a possibilidade de darmos meia- volta e seguirmos na direção contrária. Mais que isso até, não precisamos nos conter dentro dos limites do caminho, há todo um mundo fora da estrada e não é por acaso que em volta dela é onde a natureza sobrevive. Onde todos pisam, não crescem árvores, plantas ou flores. Onde todos pisam até o mato morre.
Entretanto, não posso fazer nada. Onisciência não significa onipotência. O que posso fazer é contar a você o que vejo, na esperança de que lhe sirva como uma lição alheia ou - o mais provável, eu sei - que lhe entretenha por algumas horas e lhe anestesie das suas próprias escolhas tolas. (Novamente: eu não quis ofendê-lo, querido humano, é que essas coisas me escapam.)
Mas de volta à Ana em sua passada resignada de boi seguindo para o abate. Ela continua o seu caminho, a terra continua subindo e ameaçando a camisa branca que parece ter saído do varal não faz cinco minutos. Sendo sincera, não concordo com a escolha. Aquela camisa de botões que parece ser, pelo menos, dois tamanhos maior, presa à cintura de um jeans justo não é uma vestimenta equilibrada. Parece que uma linha a corta ao meio e divide dois objetos que vestem juntos, mesmo querendo existir separados.
Eu sei, posso exagerar às vezes, mas veja bem, se equilíbrio não fosse uma das minhas melhores habilidades, acho que poderia cair de costas neste momento. Sim, sou muito perceptiva e sensível também. E antes que você ache que sou difícil de agradar, afirmo aqui que gosto do seu cabelo. Quero dizer, não tenho certeza. Esses rabos de cavalo me confundem; nunca sei se são uma escolha estilística calculada milimetricamente ou simplesmente o oposto: a recusa de tomar qualquer decisão pela manhã. O resultado é que seus olhos são puxados para trás, como se um cabresto a tivesse nas mãos.
Ana passa por mim sem notar minha presença, algo que sempre acontece - embora eu relute em admitir - e só então percebe que hoje há algo diferente no seu caminho. Em meio àquela paisagem divida em vermelho e amarelo, no alto de uma pequena elevação, está uma Kombi estacionada.
É verde. Um verde menta tão vivo que destoa das cores desbotadas desta paisagem entediante de Várzea Seca. Tão vivo que parece ter surgido de lugar nenhum, como se fosse impossível chegar àquele monte sem que ninguém se desse conta.
Do teto pendura-se um toldo listrado em branco e vermelho, uma escolha curiosa que, à primeira vista, não combina com a cor do veículo, mas confesso que funciona. O toldo amplia o espaço da kombi, acomodando uma mesa e cadeiras dobráveis. À esquerda, uma pequena estante de duas prateleiras abriga algumas plantas que tentam manter-se vivas; um esforço em vão, pois esta não parece ser a região mais fértil do planeta.
À direita, uma estante um pouco mais alta completa essa sala ao ar livre. Nela, exibem-se alguns dos livros à venda. Sem esse móvel, acho que ninguém perceberia que essa velha Kombi cor de menta é uma livraria. Quer dizer, uma espécie de livraria... ou melhor, uma tentativa de livraria... já nem me lembro do rosto do último cliente que saiu daqui com um livro.
Para quem a vê pela primeira vez, a Kombi é apenas mais um veículo neste mundo. Num segundo olhar, revela-se uma livraria ambulante. Para Clara, é uma rota de escape; para mim, um porto seguro. Sua cor menta, que dizem estar na moda, é, na verdade, uma herança dos anos 1970, quando começou a rodar por este país. Foi assim desde o primeiro dono, passando pelo segundo e pelo terceiro, até chegar às mãos de Clara há poucos meses. Esteve em alta, caiu em desuso e agora retorna ao gosto popular.
Clara - que só para fins de entendimento chamaremos de minha “cuidadora” - olha para o horizonte, esforçando-se para apreciar a paisagem. Os planos para hoje são os mesmos de ontem: ocupar-se com o nada. À vista da mulher que caminha pela estradinha de terra, Clara pausa sua leitura e se limita a mudar ligeiramente sua posição, fitando a outra à espera que os olhares se cruzem. Pergunto-me se ainda lembra como dizer “oi”.
Ana para. Não consegue tirar os olhos do monte. No meio daquele pasto em que o verde luta para ser verde, mas não passa do amarelo e onde o céu está quase sempre desbotado, uma cena com essa intensidade não lhe parece real.
Vê o carro velho com o toldo que o estende sobre o pasto - seu pasto! Vê as cadeiras, as mesas, os livros... Em uma fração de segundos, recebe uma sobrecarga de informações que ultrapassa a soma de todos os detalhes e pensamentos de sua última semana. Onde esperaria uma vaca perdida ou algum outro animal de passagem, aquela cartela de cores a desconcerta.
E no caos daquele visão, Ana leva alguns demorados segundos para dar-se conta de que há alguém no meio daquilo tudo. Sentada em uma das cadeiras, está uma mulher com uma caneca nas mãos. Seu vestido azul traz ainda mais uma cor para a cena confusa. Do alto do monte — uma pequena elevação do terreno, alguns diriam — aquela mulher ousa olhá-la como quem espera um “oi” ou um aceno; ou quem sabe, até um sorriso.
A imagem por completo resgata Ana, sem sua permissão, de sua angústia e lhe traz de volta à uma realidade que não parece real. A última vez que se lembra de ter visto alguém com um vestido tão colorido fora na capital, onde estudou por alguns anos. E se não fosse por essa experiência, talvez aquele converse branco nos pés deixasse Ana ainda mais atônita.
Ana ajusta aquela camisa horrível para dentro da calça, endireita a postura e, como se nunca tivessem sido diferentes, seus passos agora, além de fortes, são firmes. A terra vermelha parece ainda mais densa ao subir.
— Alguém lhe deu permissão para estar aqui?
Clara parece despreparada para aquela resposta e hesita por alguns segundos, ponderando entre manter a humildade ou entrar em confronto.
Como eu já pressentia, opta pela humildade.
Sem hesitar, apoia o café na mesa ao lado e parece esgotar sua energia para tirar a bebida de cena; imediatamente, seus movimentos perdem força. Ela leva as mãos aos braços das cadeiras e os usa como apoio para se levantar, quase que em uma tentativa de retardar o que virá à seguir. O corpo se ergue sem que os olhos o sigam e a boca pronuncia o único som que lhe parece possível naquele momento.
- Desculpe, eu não sabia que precisava de permissão para estacionar aqui.
- Você achou que poderia simplesmente parar seu carrinho velho sem perguntar? - hesita, “carrinho velho” pode ter sido ofensivo, mas recobra sua autoridade. - Você não sabe que essas terras têm dono? - lembra que pode subir o tom. - “Dona. Eu sou a dona destas terras.”
- Desculpa, eu realmente não sabia disso. - olha ao redor e tenta medir a dimensão do pasto que não parece ter fim - Se quiser, posso ir embora, não tem problema; não tinha intenção de ficar, morar aqui ou ocupar suas terras, estava mesmo só de passagem.
- Está de passagem? De onde? Para onde? O que você veio fazer aqui? Conhece alguém aqui?
Quando finalmente a carga de perguntas se encerra, Clara encontra a oportunidade de falar.
- Eu nem sei bem como responder, eu só parei aqui. Estava já há alguns dias dirigindo, decidi entrar em uma estradinha menor e, sei lá, quando vi esse ponto mais elevado, achei que teria uma vista bonita por alguns dias.
- E achou que poderia parar? Não pensou que teria que pedir a alguém antes?
- Você tem razão. Agora que você me falou, parece óbvio, mas estou sendo sincera: não pensei nisso na hora, apenas parei.
- Parou e montou um acampamento completo. O que é isso? Uma estante com livros? Você anda por aí invadindo terras alheias e ainda se dá o trabalho de carregar uma estante cheia de livros? Você realmente quer que eu acredite que não tinha intenção nenhuma de ficar?
- É que, na verdade, eu os vendo. - a última palavra quase não é dita por completo, diminuindo como uma música que termina sem frase de efeito. - Não é que eu vendo livros, quer dizer, eu vendo, mas não sou uma livraria, entende? Tenho os livros aí para vender.
- E veio vender nas minhas terras? Para quem? Nem sei se o povo que passa por aqui sabe ler.
- Olha, eu não queria lhe causar nenhum incômodo; se quiser, posso ir embora, não tem problema nenhum. Como falei, não estava pensando em ficar por muito tempo. Aliás, já estou aqui há alguns dias; já é o suficiente.
- Há alguns dias? E ninguém viu você por aqui?
Clara se resume a balançar a cabeça e levantar os ombros. E, de fato, sei que não está mentindo porque eu também estive por aqui todo esse tempo e não me lembro de ver uma única alma passar. Quer dizer, ninguém passou; lembraria de ver alguém passar.
- Está acertado então, não quero ver você aqui amanhã. Vou mandar alguém cedinho verificar, e é melhor que não haja rastro seu ou do seu carrinho por aqui.
Ana não percebe que Clara move a cabeça novamente, desta vez na vertical. Antes mesmo de mencionar “carrinho” seus olhos já estão fixos na estradinha de terra que a trouxe até aqui. Com passos mais firmes que nunca, levantando mais terra que nunca, marcha na mesma direção, só que agora com o olhar firme à frente, como se pela primeira vez quisesse enxergar para onde ia.
Eu a sigo, mas não por acaso.



